As notícias dos últimos dias foram propícias para que eu
escrevesse um texto sobre as diferenças.
Partindo da definição de identidade proposta na aula 10 (A
Produção Social da Identidade e da Diferença), nos deparamos com uma variedade
de definições da palavra identidade. No meu ponto de vista, identidade e
diferença são palavras que não se separam, principalmente quando tentamos
analisar a relação entre as pessoas e os grupos.
Tendo identidade como aquilo que engloba os sentidos de pertencimento
a grupos e de localização no tempo e no espaço, gostaria de analisar a questão
racial no Brasil, sobre os aspectos da identidade da pessoa negra e da
cotidianidade do preconceito racial.
Semana passada, uma jovem chamou o goleiro da equipe do Santos
F.C de “macaco” durante um jogo. Disso todos já sabem, e já sabem também da
repercussão que isso teve e de seus desdobramentos, como o fato de que a jovem
em questão sofreu uma série de insultos e ameaças, chegando até mesmo a ter sua
casa incendiada.
O que me espanta é a reação extrema que um xingamento foi
capaz de provocar. Não que eu esteja defendendo a moça, mas não acho que atos
de violência e o uso de um preconceito e de uma opressão igual –se não maior-
que a manifestada pela torcedora, vão ajudar a coibir o racismo e as atitudes
de preconceito em geral. Chamar a moça de “vadia”, ou “prostituta” só prova o
quanto boa parte da população ainda é ‘atrasada’ quando se trata de certos
assuntos.
Posso estar errada, mas acredito que o uso de tais palavras
só perpetua uma outra ideia ultrapassada e igualmente opressora, que é a ideia
do machismo. Incitações como a de estupro contra a jovem são ultrajantes e
criminosas, e mostram que tanto a moça (que obviamente fez algo errado e merece
ser punida por isso) quanto os supostos defensores dos oprimidos estão na
verdade no mesmo barco.
Eu me auto intitulo “quase negra”, pois o meu tom de pele
permite que eu me declare mais que parda, mas não negra.
Durante toda a minha vida eu estudei em escolas
particulares. E só quando estava no 3º ano do ensino médio me veio o
questionamento sobre quantos negros estudavam na minha escola.
O professor pediu para que levantassem a mão aqueles que
eram negros, ou quase isso. Somente eu levantei a mão. A classe contava com 50
alunos.
Ficou pior quando ele tentou lembrar quantos negros
estudavam na escola toda. Menos de 20, numa escola com quase 4000 alunos.
A escola era o Singular, uma das melhores da cidade de Santo
André. Posso dizer que lá dificilmente se encontraria um aluno que não
pertencesse no mínimo à classe média. E isso explica o fato de se encontrar um
número tão pequeno de negros naquela escola.
Uma coisa que me deixa inquieta é a revolta que um
xingamento causa, e o tipo de debate trazido com isso. O que o país todo está
discutindo agora é apenas um dos efeitos, e não a causa e a origem do racismo.
Não faz parte da conversa entre duas senhoras no ônibus o
questionamento quanto ao porquê de, no Brasil, morrerem três vezes mais jovens
negros por conta da violência do que brancos.
Também não faz parte do bate-papo cotidiano a violência e
humilhação sofrida por garotos negros nas mãos da polícia, e de qualquer
autoridade que se ache no direito de zelar pela segurança –leia-se seguranças
de shoppings, guardas, vigias e fiscais de loja- pelo simples fato de serem
negros.
Não foi questionada, pela massa, a origem do xingamento
“macaco” quando a população abraçou a campanha do “Somos Todos Macacos”. Não
estou tirando o mérito da ação inteligente e ousada do jogador Daniel Alves ao
comer a banana atirada em campo por um torcedor [se você não estava no planeta Terra naquela época
clique aqui], apenas condeno a jogada de marketing que se seguiu disso.
E quanto ao fato de a população carcerária ser composta em
sua maioria por negros? E o número ínfimo de negros nas universidades (principalmente
as mais conceituadas)? E as mulheres negras (não só as negras) que sofrem com a
violência doméstica na periferia? E o padrão de beleza que incute desde cedo
que o bonito é ser branca, loira e cabelo liso, quando a maioria das
brasileiras são pardas e do cabelo crespo? E o cidadão que é parado pela
polícia só por ser negro? Ou aquele cara que passeia pelo shopping enquanto é
seguido pelo segurança –que muitas vezes também negro- só pelo fato de ser
escuro?
Eu odeio aqueles fiscais de tudo, que condenam tudo que seja
expressão popular, ou que não tenha embasamento científico, ou então que não
tenha sido escrito por um blogueiro legal ou um escritor importante. Então não
acho que não seja legitima a revolta sentida pela população ao se deparar com
os casos de racismo no futebol. Apenas destaco a indiferença e até mesmo omissão
quanto aos casos corriqueiros, que acontecem todo dia.
Ser negro significa sim ter a pele escura, o cabelo crespo,
entre outras coisas que nos distinguem fisicamente. Mas isso carrega também uma
história.
Essa história nos é negada todos os dias quando as formas de
expressão do jovem negro são marginalizadas, ou quando a simples aceitação de
suas características naturais –como assumir o cabelo crespo com um belo black power- é vista com maus olhos. Sem
falar do tratamento dado às religiões de matriz afro-brasileira. O que dizer
dos rótulos dados aos praticantes de umbanda, candomblé e outras formas de
culto? Eu questiono isso porque eu mesma já fui preconceituosa com relação a
essas religiões. Já os chamei de macumbeiros, e não tive o menor respeito por
suas práticas. Mas, graças a Deus, a vida, e as pessoas maravilhosas que
cruzaram o meu caminho, me ensinaram que macumba não passa de um instrumento
musical, e que aquelas pessoas que dançam, cantam e rodopiam estão fazendo nada
mais do que expressar aquilo que sentem e acreditam.
Às vezes eu paro para pensar e me envergonho por ter um dia
agido assim. Neguei a herança histórica e acabei negando também a identidade,
não só a deles mas também a minha identidade.
Ao pensar nisso, lembro de outro conceito aprendido em aula:
Aceitação.
A professora Andrea falou sobre aceitarmos as diferenças das
outras pessoas, por mais estranhas que elas nos pareçam, tentando incorporar o
que for interessante, sempre aprendendo algo através da troca, isso poderia ser
positivo para a nossa vida.
Ela estava certa.
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