terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sobre as diferenças

As notícias dos últimos dias foram propícias para que eu escrevesse um texto sobre as diferenças.

Partindo da definição de identidade proposta na aula 10 (A Produção Social da Identidade e da Diferença), nos deparamos com uma variedade de definições da palavra identidade. No meu ponto de vista, identidade e diferença são palavras que não se separam, principalmente quando tentamos analisar a relação entre as pessoas e os grupos.

Tendo identidade como aquilo que engloba os sentidos de pertencimento a grupos e de localização no tempo e no espaço, gostaria de analisar a questão racial no Brasil, sobre os aspectos da identidade da pessoa negra e da cotidianidade do preconceito racial.

Semana passada, uma jovem chamou o goleiro da equipe do Santos F.C de “macaco” durante um jogo. Disso todos já sabem, e já sabem também da repercussão que isso teve e de seus desdobramentos, como o fato de que a jovem em questão sofreu uma série de insultos e ameaças, chegando até mesmo a ter sua casa incendiada.

O que me espanta é a reação extrema que um xingamento foi capaz de provocar. Não que eu esteja defendendo a moça, mas não acho que atos de violência e o uso de um preconceito e de uma opressão igual –se não maior- que a manifestada pela torcedora, vão ajudar a coibir o racismo e as atitudes de preconceito em geral. Chamar a moça de “vadia”, ou “prostituta” só prova o quanto boa parte da população ainda é ‘atrasada’ quando se trata de certos assuntos.

Posso estar errada, mas acredito que o uso de tais palavras só perpetua uma outra ideia ultrapassada e igualmente opressora, que é a ideia do machismo. Incitações como a de estupro contra a jovem são ultrajantes e criminosas, e mostram que tanto a moça (que obviamente fez algo errado e merece ser punida por isso) quanto os supostos defensores dos oprimidos estão na verdade no mesmo barco.

Eu me auto intitulo “quase negra”, pois o meu tom de pele permite que eu me declare mais que parda, mas não negra.

Durante toda a minha vida eu estudei em escolas particulares. E só quando estava no 3º ano do ensino médio me veio o questionamento sobre quantos negros estudavam na minha escola.
O professor pediu para que levantassem a mão aqueles que eram negros, ou quase isso. Somente eu levantei a mão. A classe contava com 50 alunos.

Ficou pior quando ele tentou lembrar quantos negros estudavam na escola toda. Menos de 20, numa escola com quase 4000 alunos.

A escola era o Singular, uma das melhores da cidade de Santo André. Posso dizer que lá dificilmente se encontraria um aluno que não pertencesse no mínimo à classe média. E isso explica o fato de se encontrar um número tão pequeno de negros naquela escola.

Uma coisa que me deixa inquieta é a revolta que um xingamento causa, e o tipo de debate trazido com isso. O que o país todo está discutindo agora é apenas um dos efeitos, e não a causa e a origem do racismo.

Não faz parte da conversa entre duas senhoras no ônibus o questionamento quanto ao porquê de, no Brasil, morrerem três vezes mais jovens negros por conta da violência do que brancos.

Também não faz parte do bate-papo cotidiano a violência e humilhação sofrida por garotos negros nas mãos da polícia, e de qualquer autoridade que se ache no direito de zelar pela segurança –leia-se seguranças de shoppings, guardas, vigias e fiscais de loja- pelo simples fato de serem negros.

Não foi questionada, pela massa, a origem do xingamento “macaco” quando a população abraçou a campanha do “Somos Todos Macacos”. Não estou tirando o mérito da ação inteligente e ousada do jogador Daniel Alves ao comer a banana atirada em campo por um torcedor [se você não estava no planeta Terra naquela época clique aqui], apenas condeno a jogada de marketing que se seguiu disso.

E quanto ao fato de a população carcerária ser composta em sua maioria por negros? E o número ínfimo de negros nas universidades (principalmente as mais conceituadas)? E as mulheres negras (não só as negras) que sofrem com a violência doméstica na periferia? E o padrão de beleza que incute desde cedo que o bonito é ser branca, loira e cabelo liso, quando a maioria das brasileiras são pardas e do cabelo crespo? E o cidadão que é parado pela polícia só por ser negro? Ou aquele cara que passeia pelo shopping enquanto é seguido pelo segurança –que muitas vezes também negro- só pelo fato de ser escuro?

Eu odeio aqueles fiscais de tudo, que condenam tudo que seja expressão popular, ou que não tenha embasamento científico, ou então que não tenha sido escrito por um blogueiro legal ou um escritor importante. Então não acho que não seja legitima a revolta sentida pela população ao se deparar com os casos de racismo no futebol. Apenas destaco a indiferença e até mesmo omissão quanto aos casos corriqueiros, que acontecem todo dia.

Ser negro significa sim ter a pele escura, o cabelo crespo, entre outras coisas que nos distinguem fisicamente. Mas isso carrega também uma história.

Essa história nos é negada todos os dias quando as formas de expressão do jovem negro são marginalizadas, ou quando a simples aceitação de suas características naturais –como assumir o cabelo crespo com um belo black power- é vista com maus olhos. Sem falar do tratamento dado às religiões de matriz afro-brasileira. O que dizer dos rótulos dados aos praticantes de umbanda, candomblé e outras formas de culto? Eu questiono isso porque eu mesma já fui preconceituosa com relação a essas religiões. Já os chamei de macumbeiros, e não tive o menor respeito por suas práticas. Mas, graças a Deus, a vida, e as pessoas maravilhosas que cruzaram o meu caminho, me ensinaram que macumba não passa de um instrumento musical, e que aquelas pessoas que dançam, cantam e rodopiam estão fazendo nada mais do que expressar aquilo que sentem e acreditam.

Às vezes eu paro para pensar e me envergonho por ter um dia agido assim. Neguei a herança histórica e acabei negando também a identidade, não só a deles mas também a minha identidade.

Ao pensar nisso, lembro de outro conceito aprendido em aula: Aceitação.

A professora Andrea falou sobre aceitarmos as diferenças das outras pessoas, por mais estranhas que elas nos pareçam, tentando incorporar o que for interessante, sempre aprendendo algo através da troca, isso poderia ser positivo para a nossa vida.


Ela estava certa.

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